Paulo Roberto Gomes Fernandes acompanhou um encontro de negócios entre Brasil e Rússia em que a vitrine de oportunidades ficou concentrada quase exclusivamente na agricultura e no tema dos fertilizantes. A Apex-Brasil, agência voltada à promoção de exportações e à atração de investimentos, participou das discussões com apoio de entidades empresariais do eixo Brasil Rússia, porém a abordagem adotada acabou reforçando um retrato limitado do que o país consegue oferecer em áreas de maior densidade tecnológica.
A relevância do agronegócio é indiscutível, tanto pelo peso econômico quanto pela urgência de insumos. Ainda assim, eventos dessa natureza costumam funcionar como espaço para construir reputação e abrir caminhos de cooperação em segmentos onde o valor agregado é maior, como energia, infraestrutura, engenharia de dutos e desenvolvimento tecnológico. Quando a conversa se restringe ao óbvio, a consequência é previsível: o Brasil aparece como fornecedor de bens primários, mesmo quando possui capacidade aplicada para resolver desafios complexos em escala internacional.
Um encontro com potencial, mas com pauta estreita
Naquele momento, o ambiente diplomático e empresarial estava aquecido, com atenção internacional voltada para agendas bilaterais e reuniões com o setor privado. Em situações assim, a expectativa de mercado tende a ser de uma apresentação mais ampla, capaz de mostrar o Brasil como parceiro em cadeias sofisticadas, não apenas como origem de commodities. Contudo, a mensagem principal ficou ancorada em agricultura, fertilizantes e necessidades imediatas, sem explorar com a mesma energia outros campos de interesse para cooperação.
Para Paulo Roberto Gomes Fernandes, o problema não está em defender o agro, e sim em não articular o agro com o restante do ecossistema produtivo. Uma pauta bem construída poderia demonstrar como produtividade agrícola depende de energia confiável, logística eficiente, automação, dados e engenharia. Dessa forma, a narrativa deixa de ser setorial e passa a ser sistêmica, o que amplia a atratividade do país para acordos de longo prazo.

O que ficou de fora e por que isso faz diferença
Havia espaço para destacar frentes em que o Brasil pode dialogar com parceiros internacionais de modo mais ambicioso: tecnologias ligadas a petróleo e gás, exploração e produção em águas profundas, materiais avançados, cadeias industriais estratégicas, aplicações de radioisótopos e projetos de infraestrutura com alto nível de exigência. Mesmo que nem todos os tópicos se convertam em contratos imediatos, eles funcionam como sinal de capacidade, maturidade técnica e abertura à inovação.
Paulo Roberto Gomes Fernandes frisa que iniciativas internacionais em dutos e energia frequentemente exigem soluções para terrenos difíceis, longas travessias e requisitos rígidos de segurança. Nesse tipo de projeto, a engenharia aplicada pesa mais do que slogans, porque decisões costumam ser guiadas por desempenho comprovado, certificações, histórico de entrega e capacidade de operar em ambientes restritivos.
Também existe um efeito indireto: ao apresentar apenas o agro, o Brasil deixa de reforçar que parte da modernização agrícola depende exatamente dos setores omitidos, como automação, telecomunicações, equipamentos, softwares, logística e energia. Assim, a conversa perde a oportunidade de mostrar interdependência entre segmentos e de atrair investimentos que, no fim, beneficiariam o próprio agronegócio.
Como ampliar a comunicação e transformar interesse em parceria
Para Paulo Roberto Gomes Fernandes, a promoção de negócios se fortalece quando troca generalidades por exemplos concretos: quais soluções o Brasil domina, em que tipos de obras já entregou resultados, quais modelos de cooperação são possíveis, quais barreiras regulatórias precisam ser antecipadas. Com isso, o diálogo deixa de ser apenas comercial e passa a ser também técnico, criando terreno para memorandos, pilotos e acordos de desenvolvimento conjunto.
Ao final, o ponto central é de posicionamento. Paulo Roberto Gomes Fernandes entende que encontros internacionais são momentos raros para mostrar o país que está além do óbvio, e isso inclui engenharia, inovação e capacidade de execução. Quando o Brasil se apresenta por um recorte estreito, perde chances de gerar empregos qualificados, atrair tecnologia e aumentar competitividade, justamente nos setores que sustentam crescimento de longo prazo.
Autor: Alexei Kuznetsov

