Arquitetura escavada na pedra: O diferencial único de Matera para arquitetos e designers

Por Diego Velázquez 5 Min de leitura
Daugliesi Giacomasi Souza

Daugliesi Giacomasi Souza, fundadora da DGdecor, inclui Matera entre as experiências que mais profundamente transformam o olhar de um profissional de design. Neste artigo, você vai entender o que torna a arquitetura dos sassi materani tão singular, por que essa cidade italiana continua sendo referência para arquitetos e designers contemporâneos e de que forma o diálogo entre rocha, luz e espaço habitado em Matera oferece lições que nenhuma tendência digital consegue substituir.

Se você deseja saber mais sobre este tema, acompanhe o conteúdo a seguir!

O que são os sassi de Matera e por que representam um patrimônio arquitetônico único?

Tal como apresenta Daugliesi Giacomasi Souza, as sassi são habitações escavadas diretamente na rocha calcária que forma as encostas dos dois grandes ravinas de Matera, na região da Basilicata, no Sul da Itália. Habitados de forma contínua por milênios, esses espaços representam uma das formas mais antigas e sofisticadas de arquitetura vernacular do mundo ocidental. Em 1993, a Unesco reconheceu esse conjunto como Patrimônio da Humanidade, consolidando o que os olhos já sabiam: Matera é irrepetível.

O que distingue os sassi de outras formações rupestres é a densidade urbana que ali se desenvolveu. Não se trata de cavernas isoladas, mas de um tecido urbano completo, com ruas, igrejas, cisternas, sistemas de drenagem e hierarquias espaciais que respondem à topografia de forma quase orgânica. Dessa forma, a cidade não foi imposta ao território; ela cresceu a partir dele, camada por camada, ao longo de gerações.

Como a arquitetura de Matera dialoga com a luz e o território?

A relação entre luz e pedra em Matera é um dos elementos que mais impacta quem visita a cidade pela primeira vez. O calcário local, de tonalidade que varia entre o bege e o dourado, reage de forma diferente a cada hora do dia. Ao amanhecer, os sassi emergem da névoa com uma leveza quase irreal. Ao entardecer, a luz rasante revela texturas e volumes que passariam despercebidos sob iluminação direta. Daugliesi Giacomasi Souza descreve esse fenômeno como uma das experiências visuais mais formadoras que um designer pode ter.

Daugliesi Giacomasi Souza
Daugliesi Giacomasi Souza

Essa sensibilidade à luz natural é uma das lições mais valiosas que Matera oferece a quem projeta espaços. Em um contexto em que a iluminação artificial muitas vezes substitui a natural, a arquitetura rupestre italiana lembra que a qualidade da luz é um material de projeto tão importante quanto a pedra, a madeira ou o concreto.

Quais princípios construtivos dos sassi continuam relevantes para o design contemporâneo?

A arquitetura de Matera resolve problemas reais com inteligência acumulada ao longo de séculos. O sistema de cisternas que captava e armazenava água da chuva, os ambientes semi-enterrados que regulavam naturalmente a temperatura interna e a orientação dos espaços em função da ventilação predominante são soluções que Daugliesi Giacomasi Souza associa aos princípios da arquitetura bioclimática e do design sustentável mais atual.

A fundadora da DGdecor destaca que o interesse contemporâneo por Matera não é nostálgico nem puramente estético. Ele reflete uma busca por referências que provem, com evidência histórica, que é possível construir bem com poucos recursos, em harmonia com o ambiente e com atenção genuína às necessidades humanas. Essa é uma agenda absolutamente atual.

De que forma Matera inspira projetos de design e arquitetura na atualidade?

Nos últimos anos, Matera ganhou visibilidade internacional ao sediar eventos culturais de grande porte, incluindo sua designação como Capital Europeia da Cultura em 2019. Esse reconhecimento atraiu arquitetos, designers e curadores de todo o mundo, que passaram a estudar de perto como um território tão particular pode ser preservado, habitado e reinterpretado sem perder sua essência.

Daugliesi Giacomasi Souza aponta, por fim,  que os projetos contemporâneos realizados em Matera oferecem um modelo interessante de intervenção sensível. Hotéis instalados em sassi restaurados, galerias escavadas na rocha e espaços culturais que preservam a estratigrafia do lugar mostram que é possível dialogar com a história sem museificá-la.

Autor: Diego Rodríguez Velázquez

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