Por que a doutrina de segurança é crucial para o sucesso de operações em eventos esportivos de alta visibilidade?

Por Diego Velázquez 7 Min de leitura
Ernesto Kenji Igarashi

Ernesto Kenji Igarashi explica que, com a Copa do Mundo de 2026 em plena disputa no continente norte-americano e a atenção internacional direcionada para a magnitude dos desafios operacionais que um torneio desse porte impõe às cidades-sede, o que chama atenção é a diferença entre ter um plano de segurança para grandes eventos e possuir, de fato, uma doutrina consolidada de atuação. 

São conceitos distintos, com implicações práticas radicalmente diferentes, e confundi-los é um dos erros mais recorrentes cometidos por gestores que assumem a responsabilidade por eventos de alta visibilidade sem a preparação adequada.

A realidade dos grandes eventos esportivos modernos é que eles concentram, em poucas horas e em um espaço geograficamente limitado, um conjunto de variáveis de risco que raramente aparecem combinadas em qualquer outro contexto operacional: densidade populacional extrema, presença de autoridades e dignitários, visibilidade midiática global, diversidade de público com diferentes perfis comportamentais e uma janela de tempo rígida que não admite erros de execução. 

Nesta leitura, você vai compreender por que a doutrina de segurança em grandes eventos esportivos é o elemento mais determinante entre o sucesso e o colapso de uma operação, e o que as experiências internacionais dos últimos anos revelam sobre como construí-la com consistência.

Você sabe a diferença entre escrever um plano e agir segundo uma doutrina?

A distinção entre protocolo e doutrina pode parecer semântica à primeira vista, mas tem impacto direto na resposta operacional diante de imprevistos. Um protocolo descreve o que deve ser feito em situações previstas: controle de acesso, distribuição de efetivo, gestão de emergências médicas, evacuação. Uma doutrina, por outro lado, forma o raciocínio da equipe para lidar com o que não foi previsto, e nos grandes eventos esportivos o imprevisível é regra, não exceção. 

Ernesto Kenji Igarashi constata que, ao analisar operações de segurança em eventos de alta complexidade, as falhas mais graves raramente ocorrem nos pontos mapeados nos planos: elas emergem nas lacunas entre os protocolos, nos momentos em que dois procedimentos distintos se sobrepõem e ninguém sabe qual tem prioridade, ou quando a comunicação entre setores falha e as equipes precisam decidir de forma autônoma.

De que maneira a Copa de 2014 e os Jogos de 2016 impactaram o legado esportivo e cultural do Brasil?

O Brasil tem uma relação histórica particular com os grandes eventos esportivos de escala global: foi sede da Copa do Mundo de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016, dois eventos que testaram de forma inédita a capacidade operacional de segurança do país. As lições acumuladas nessas experiências formaram um patrimônio técnico que, quando sistematizado e incorporado à formação de equipes, representa um diferencial expressivo em relação a países que nunca enfrentaram esse nível de complexidade logística e de segurança de forma simultânea.

Ernesto Kenji Igarashi
Ernesto Kenji Igarashi

Entretanto, Ernesto Kenji Igarashi observa que a assimilação institucional desse aprendizado não foi homogênea. Em algumas corporações e órgãos de segurança pública, as experiências de 2014 e 2016 geraram revisões doutrinais profundas, com atualização de protocolos, formação especializada e integração mais eficiente entre as diferentes agências envolvidas. Em outros contextos, o aprendizado ficou restrito ao nível individual dos profissionais que participaram diretamente das operações, sem se transformar em conhecimento institucional documentado e replicável. 

A segurança em estádios como laboratório permanente

Os estádios representam, dentro do universo dos grandes eventos, o ambiente mais controlado e, paradoxalmente, o mais desafiador do ponto de vista operacional. Controlado porque tem limites físicos definidos, fluxos previsíveis e infraestrutura permanente. Ernesto Kenji Igarashi pontua que é desafiador porque a densidade de público, a intensidade emocional e o simbolismo associado ao esporte criam condições que amplificam qualquer falha de segurança para muito além de suas proporções reais. Um incidente que seria gerenciável em qualquer outro contexto torna-se, dentro de um estádio lotado durante uma partida de alta relevância, um problema de proporções institucionais com repercussão imediata na mídia e na opinião pública.

A doutrina de segurança em estádios precisa, por isso, contemplar dimensões frequentemente negligenciadas nos planejamentos convencionais: a gestão do comportamento de multidões em estados emocionais extremos, a identificação precoce de situações de risco antes que se tornem incidentes declarados, a integração com os sistemas de comunicação interna do próprio estádio e o alinhamento entre a equipe de segurança privada do evento e os órgãos de segurança pública responsáveis pela área externa. 

Capacitação contínua e integração entre agências são essenciais para eventos seguros no Brasil  

O calendário esportivo internacional dos próximos anos volta a colocar o Brasil na rota de grandes eventos de expressão global, e a pergunta relevante não é se o país tem estrutura de segurança, mas se essa estrutura está organizada em torno de uma doutrina coerente, atualizada e testada. Nota-se que a janela atual é estratégica para um movimento que vai além da preparação operacional imediata: a construção de uma memória institucional de segurança em grandes eventos que possa ser ativada, revisada e aperfeiçoada a cada novo ciclo, em vez de reconstruída do zero a cada edição.

Essa memória institucional se constrói com sistematização de aprendizados, formação continuada de equipes especializadas em segurança em estádios e em eventos de massa, integração entre agências e um compromisso de longo prazo com a cultura doutrinária que vai além do prazo de cada evento isolado. Ernesto Kenji Igarashi resume que o Brasil já demonstrou que tem capacidade operacional para situações de alta complexidade. 

Autor: Diego Rodríguez Velázquez

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