Paraná já tem 210 mil trabalhadores em tecnologia: o que esse crescimento muda para Curitiba e o mercado de trabalho

Por Diego Velázquez 9 Min de leitura
Paraná já tem 210 mil trabalhadores em tecnologia: o que esse crescimento muda para Curitiba e o mercado de trabalho

Avanço de 36% em sete anos mostra expansão dos empregos tecnológicos e aumenta a demanda por qualificação profissional no Estado.

O Paraná entrou em uma nova fase de transformação do mercado de trabalho, marcada pelo crescimento das atividades ligadas à tecnologia, à indústria avançada e à economia do conhecimento. Dados levantados pelo Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes) mostram que o número de trabalhadores em atividades de alta e média-alta tecnologia passou de 154 mil, em 2018, para quase 210 mil em 2025, avanço de 36% em sete anos. O movimento interessa diretamente a Curitiba e à Região Metropolitana, onde estão concentradas universidades, empresas de tecnologia, indústrias e centros de inovação. (Governador do Paraná)

Mais do que representar uma mudança no perfil das empresas, esse crescimento ajuda a explicar por que determinadas profissões estão ganhando espaço no Paraná. Também mostra que a disputa por profissionais qualificados tende a aumentar à medida que novos investimentos chegam ao Estado. Para estudantes, trabalhadores em transição de carreira e empresas curitibanas, a questão passa a ser outra: quais competências serão mais valorizadas e como aproveitar as oportunidades criadas por essa transformação?

Por que os empregos de tecnologia estão crescendo no Paraná?

O avanço não está restrito às empresas tradicionalmente classificadas como companhias de tecnologia. O levantamento do Ipardes considera atividades que incluem indústria farmacêutica, fabricação de veículos, máquinas e equipamentos, eletrônicos e serviços de informação, mostrando como a digitalização passou a fazer parte de setores importantes da economia paranaense. Em 2025, essas atividades representavam 5,5% dos empregos formais do Estado, contra 5% em 2018. (Governador do Paraná)

A mudança é especialmente relevante porque Curitiba funciona como um dos principais polos de serviços, inovação, ensino superior e empreendedorismo do Paraná. Ao mesmo tempo, municípios da Região Metropolitana e outras regiões do Estado concentram indústrias automotivas, farmacêuticas, agroindustriais e empresas de logística que dependem cada vez mais de automação, análise de dados, sistemas digitais e profissionais capazes de trabalhar com novas tecnologias. Assim, a expansão tecnológica não significa apenas contratar programadores, mas modificar funções existentes em praticamente toda a economia.

Outro indicador ajuda a dimensionar o impacto. Os trabalhadores desses segmentos recebem, em média, cerca de R$ 5,4 mil por mês, aproximadamente 26% acima da remuneração média estadual de R$ 4,3 mil, segundo o levantamento divulgado pelo Governo do Paraná. Juntos, os profissionais dessas atividades movimentam aproximadamente R$ 1,1 bilhão mensais em salários. (Governador do Paraná)

Esse diferencial de renda pode produzir efeitos além do ambiente empresarial. Quando profissionais mais qualificados recebem salários maiores, aumenta o potencial de consumo, contratação de serviços e circulação de recursos em cidades como Curitiba. Para a economia regional, portanto, a tecnologia pode funcionar simultaneamente como setor empregador, ferramenta de produtividade e mecanismo de geração de renda.

O que o crescimento da tecnologia muda para quem procura emprego em Curitiba?

Para quem está entrando no mercado de trabalho, o principal efeito é a valorização crescente da qualificação técnica e digital. O próprio perfil dos trabalhadores tecnológicos mostra essa tendência: aproximadamente 32% possuem ensino superior completo e, considerando também aqueles que concluíram o ensino médio, 88% da força de trabalho dessas atividades possui pelo menos essa formação. (Governador do Paraná)

Isso não significa que somente profissionais com graduação terão oportunidades. Cursos técnicos, formação profissionalizante, certificações e experiência prática podem abrir portas em áreas como manutenção industrial, automação, análise de dados, suporte de sistemas, logística tecnológica, produção avançada e operações digitais. Para jovens de Curitiba e da Região Metropolitana, essa diversidade é importante porque permite construir uma trajetória profissional sem depender exclusivamente de um curso universitário de quatro ou cinco anos.

As oportunidades também podem crescer em setores que, à primeira vista, parecem distantes da tecnologia. Uma indústria precisa de profissionais capazes de operar equipamentos automatizados; uma empresa de logística utiliza sistemas de rastreamento e análise de dados; o agronegócio demanda soluções digitais; hospitais incorporam sistemas de informação e equipamentos sofisticados; enquanto pequenos negócios precisam administrar vendas, pagamentos, estoque e relacionamento com clientes por plataformas digitais.

O Paraná já apresenta sinais de que essa transformação está conectada à chegada e à expansão de investimentos. O Estado registrou mais de 55 mil novos empregos formais em atividades de alta e média-alta tecnologia entre 2018 e 2025, enquanto empresas de setores como automotivo, farmacêutico, máquinas e tecnologia ampliaram suas operações. Entre os exemplos citados pelo governo estão Renault, DAF Caminhões, Prati-Donaduzzi e Positivo Tecnologia. (Governador do Paraná)

Como Curitiba pode aproveitar essa nova fase da economia paranaense?

Curitiba tem uma posição estratégica porque reúne universidades, centros de pesquisa, empresas consolidadas e um ecossistema de startups. A transformação do mercado de trabalho tende a aproximar ainda mais esses ambientes, especialmente quando pesquisas acadêmicas conseguem ser convertidas em produtos, serviços ou processos utilizados por empresas. Essa conexão pode beneficiar tanto estudantes quanto empreendedores que procuram oportunidades para transformar conhecimento em negócios.

Um exemplo dessa estratégia é a Fábrica de Ideias, projeto em implantação no bairro Rebouças, em Curitiba. O complexo recebeu investimento estadual previsto de R$ 296,5 milhões e foi concebido para funcionar como polo de inovação e economia criativa, aproveitando a estrutura histórica de uma antiga unidade industrial. A proposta envolve empresas de diferentes segmentos e reforça a intenção de transformar áreas tradicionais da capital em espaços voltados à inovação. (Governador do Paraná)

Outro movimento importante ocorre nas universidades e instituições de pesquisa. Programas estaduais de ciência, tecnologia e inovação têm buscado aproximar pesquisadores, startups e empresas, enquanto iniciativas de apoio à formação científica destinam recursos para bolsas de iniciação científica, desenvolvimento tecnológico e extensão universitária. Esse tipo de investimento é relevante porque cria uma ponte entre a formação acadêmica e as necessidades concretas do mercado. (Seti)

Para as empresas paranaenses, o desafio será acompanhar essa velocidade sem enfrentar uma escassez ainda maior de profissionais. Investir apenas em equipamentos ou softwares não garante produtividade se não houver trabalhadores capazes de utilizar essas ferramentas. Por isso, programas internos de capacitação, parcerias com universidades e contratação de profissionais em formação tendem a ganhar importância nos próximos anos.

A expansão também cria espaço para pequenos negócios e startups de Curitiba. Soluções voltadas a inteligência artificial, automação, agronegócio, educação, logística, gestão e cidades inteligentes podem encontrar demanda tanto dentro do Estado quanto fora dele. O fortalecimento das exportações de produtos de alta tecnologia produzidos no Paraná reforça essa perspectiva: em 2025, essas vendas movimentaram mais de US$ 3,8 bilhões, alta de 15% em relação ao ano anterior, segundo dados do MDIC compilados pelo Ipardes. (Governador do Paraná)

O cenário, portanto, aponta para uma mudança que vai além do número de vagas. O Paraná está formando uma base maior de profissionais tecnológicos ao mesmo tempo em que amplia investimentos em infraestrutura, indústria, pesquisa e inovação. Para Curitiba, isso pode significar mais oportunidades de empregos qualificados, novos negócios e maior integração entre universidades e empresas.

Nos próximos anos, a capacidade de aproveitar esse movimento dependerá principalmente da qualificação da população. Estudantes que buscarem formação em áreas digitais, trabalhadores dispostos a atualizar competências e empresas que investirem em treinamento estarão mais preparados para acompanhar a transformação. A tendência é que tecnologia deixe de ser vista como um segmento isolado e passe a ocupar espaço cada vez maior na indústria, nos serviços, no agronegócio e na economia urbana paranaense.

Compartilhe este artigo