Curitiba se prepara para o maior El Niño em 140 anos: o que muda na cidade

Por Diego Velázquez 8 Min de leitura

Prefeitura cria comitê especial, investe em parques-esponja e reforça obras de drenagem para reduzir o risco de alagamentos na capital.

Curitiba entrou em estado de atenção diante da previsão de um dos fenômenos climáticos mais intensos das últimas décadas. Meteorologistas apontam a possibilidade da formação de um Super El Niño em 2026, com potencial para intensificar chuvas e aumentar o risco de alagamentos e deslizamentos no Sul do país. Projeções da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos indicam alta probabilidade de que o fenômeno se desenvolva ao longo do ano e se mantenha até 2027. Para os moradores da capital paranaense, a pergunta mais comum tem sido a mesma: a cidade está preparada para enfrentar chuvas mais fortes do que o habitual? A resposta da administração municipal veio na forma de um plano estruturado, que combina obras físicas, monitoramento e articulação entre municípios da região metropolitana. MassaMassa

O anúncio da criação de um comitê gestor especial foi feito pelo prefeito Eduardo Pimentel, com a responsabilidade de coordenar o monitoramento, o planejamento e a adaptação de ações integradas entre os órgãos municipais para evitar e mitigar tragédias ambientais. A preocupação não é exagerada. Em 2024, o Rio Grande do Sul foi castigado por chuvas intensas associadas ao El Niño, que causaram a pior inundação da história do estado, um episódio que segue como referência de alerta para gestores públicos de todo o Sul do Brasil. A lembrança recente da tragédia gaúcha ajuda a explicar por que Curitiba decidiu antecipar sua resposta institucional em vez de esperar o início efetivo das chuvas mais fortes. Bem ParanáMassa

Como funcionam os parques-esponja e as obras de drenagem

Entre as principais apostas da prefeitura estão os chamados parques-esponja, estruturas que funcionam como reservatórios temporários de água da chuva. No Campo Comprido, a Bacia de Detenção do Rio Mossunguê tem capacidade para armazenar 29 mil metros cúbicos de água. Já no Parque Santa Cândida, duas bacias de contenção estão em construção no Rio Atuba, somando capacidade total de 150 mil metros cúbicos, com previsão de entrada em operação na primavera. A lógica por trás dessas obras é simples: em vez de deixar que grandes volumes de chuva sigam diretamente para os rios da cidade, elevando o risco de transbordamento, as bacias retêm a água temporariamente e a liberam de forma controlada. Bem Paraná

O trabalho de prevenção, no entanto, vai além dessas duas obras específicas. A Secretaria Municipal de Obras Públicas mantém cerca de 35 equipes diariamente nas ruas realizando limpeza e desassoreamento de rios, córregos e galerias, além de intervenções pontuais em bairros mais suscetíveis a alagamentos. Esse esforço acontece em paralelo à revisão do Plano de Mitigação e Adaptação às Mudanças Climáticas de Curitiba, conduzida pela Secretaria Municipal do Meio Ambiente em conjunto com o Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba, com o objetivo de incorporar dados científicos mais recentes e fortalecer as estratégias de adaptação da cidade a eventos climáticos extremos. RedetvparanaRedetvparana

A preservação de áreas verdes também entra na conta como medida preventiva. Segundo a secretária municipal do Meio Ambiente, Marilza Dias, a cidade conta atualmente com 68 metros quadrados de área verde por habitante, 53 parques e bosques já implantados e outros três em construção neste ano. Pelo programa Meio Milhão de Árvores, entre janeiro de 2025 e maio de 2026 foram plantadas 221 mil novas árvores pela prefeitura e por moradores que retiraram mudas gratuitamente nas distribuições feitas pela administração municipal. A vegetação urbana ajuda a reduzir o escoamento superficial da água, complementando o papel das bacias de contenção. RedetvparanaBem Paraná

Uma resposta que vai além dos limites de Curitiba

Como chuvas e ventos não respeitam fronteiras municipais, a prefeitura optou por ampliar a discussão para toda a região metropolitana. Prefeitos e representantes de municípios se reuniram no Palácio 29 de Março para debater ações conjuntas dentro do Plano Estratégico de Enfrentamento ao El Niño 2026/2027, com a participação de gestores de Curitiba, Araucária, Campo Largo, Campo Magro, Colombo, Pinhais, Piraquara, São José dos Pinhais, Quatro Barras e Almirante Tamandaré, além de representantes da Defesa Civil. Durante o encontro, o prefeito destacou que as medidas de prevenção já estavam em andamento nos municípios, mas defendeu uma atuação integrada para ampliar a capacidade de resposta diante dos possíveis impactos do fenômeno. Banda BBanda B

A fala do prefeito resume bem a lógica adotada pela gestão pública na região: cada cidade já realiza suas próprias ações de prevenção, como limpeza de rios e obras de drenagem, mas o efeito de um El Niño intenso tende a ser regional, afetando bacias hidrográficas que atravessam diversos municípios ao mesmo tempo. Por isso, a troca de informações entre prefeituras e órgãos estaduais de defesa civil passou a ser tratada como parte central da estratégia, e não apenas como um gesto simbólico de cooperação.

O que muda no dia a dia de quem vive na capital

Para o morador comum, a preparação da cidade se traduz em ações que já estão visíveis em diversos bairros: obras de macrodrenagem em andamento, equipes de limpeza percorrendo galerias e córregos, e a expansão de parques que também funcionam como áreas de lazer no dia a dia, mas que ganham função estratégica quando as chuvas se intensificam. A expectativa da administração municipal é que essas estruturas comecem a operar plenamente ainda durante a primavera, período em que historicamente se concentram os maiores volumes de precipitação associados a fenômenos como o El Niño.

Ainda assim, especialistas em gestão de risco costumam reforçar que nenhuma obra de infraestrutura elimina por completo a possibilidade de transtornos em situações climáticas extremas. O que a soma de comitê gestor, parques-esponja, ampliação de áreas verdes e articulação metropolitana busca fazer é reduzir a intensidade e a frequência dos impactos, dando à cidade mais capacidade de resposta rápida quando os volumes de chuva ultrapassarem a média histórica. Nos próximos meses, a evolução das previsões meteorológicas para o Sul do país deve indicar com mais precisão o quanto desse planejamento será, de fato, posto à prova.

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