Prefeitura cria comitê especial, investe em parques-esponja e reforça obras de drenagem para reduzir risco de alagamentos na capital paranaense
Curitiba entrou em estado de atenção diante da previsão de que o El Niño deste ano pode ser o mais intenso dos últimos 140 anos. A informação, divulgada por órgãos de monitoramento climático, levou a Prefeitura a antecipar medidas que normalmente seriam tomadas apenas às vésperas da primavera, época em que o fenômeno costuma provocar seus efeitos mais fortes no Sul do Brasil. O alerta não é exagero passageiro. O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial, e no Paraná ele historicamente vem acompanhado de chuvas mais frequentes e intensas, o que eleva o risco de alagamentos, deslizamentos e transtornos na infraestrutura urbana. Foi justamente esse cenário que motivou o prefeito Eduardo Pimentel a formalizar, em 1º de junho, um comitê gestor especial dedicado exclusivamente a coordenar o enfrentamento do fenômeno na capital. A criação do grupo não é um gesto simbólico. Ele reúne diferentes secretarias municipais com a missão de monitorar, planejar e adaptar ações de forma integrada, evitando que cada órgão trabalhe de maneira isolada diante de um problema que, segundo o próprio prefeito, não respeita fronteiras administrativas.
A lembrança mais próxima de que o risco é real veio do Rio Grande do Sul, castigado em 2024 por enchentes históricas que deixaram marcas profundas em cidades inteiras. Curitiba não quer repetir esse roteiro, e por isso a resposta municipal combina obras físicas, tecnologia de monitoramento e articulação regional. Um dos pilares do plano são os chamados parques-esponja, estruturas pensadas para funcionar como reservatórios temporários de água da chuva. No bairro Campo Comprido, a Bacia de Detenção do Rio Mossunguê já tem capacidade para armazenar 29 mil metros cúbicos de água. No Parque Santa Cândida, duas bacias de contenção no Rio Atuba somam capacidade total de 150 mil metros cúbicos, com previsão de entrarem em operação ainda na primavera, período em que o El Niño costuma se manifestar com mais força. Paralelamente, a Secretaria Municipal de Obras Públicas mantém cerca de 35 equipes circulando diariamente pela cidade para limpeza de rios, córregos e galerias pluviais, com investimento anual de R$ 63 milhões apenas nessa manutenção contínua. As obras de macrodrenagem, que ampliam a capacidade de vazão dos cursos d’água, já receberam R$ 77,9 milhões, enquanto outros R$ 17,5 milhões foram destinados a estudos hidrológicos e à atualização do Plano Diretor de Drenagem da cidade.
O que muda na rotina de quem mora na capital
Para o morador comum, a pergunta mais direta é simples: o que muda no dia a dia? A resposta passa por três frentes que a Prefeitura tem reforçado nas últimas semanas. A primeira é o monitoramento em tempo real. A Defesa Civil de Curitiba opera um Sistema de Alerta e Alarme de Prevenção a Desastres, com 15 estações meteorológicas espalhadas pela cidade que acompanham continuamente o nível dos rios e as condições do tempo. Esse sistema é o que permite emitir alertas antecipados quando uma chuva forte se aproxima, dando tempo para que moradores de áreas de risco tomem precauções antes que a água suba. A segunda frente é educativa. Programas como o Família Resiliente e os Núcleos Comunitários de Proteção e Defesa Civil têm o objetivo de capacitar moradores e servidores públicos para agir corretamente diante de alagamentos, incêndios e outros eventos extremos, reduzindo a dependência exclusiva de socorro externo nos primeiros minutos de uma emergência.
A terceira frente envolve a integração entre municípios da Região Metropolitana. No dia 16 de junho, o prefeito Eduardo Pimentel reuniu representantes de nove cidades vizinhas no Palácio 29 de Março para alinhar o Plano Estratégico de Enfrentamento ao El Niño 2026/2027. A lógica por trás do encontro é prática: uma chuva forte não reconhece limites municipais, e uma enchente que começa em um bairro de um município vizinho pode chegar às margens de rios que cruzam Curitiba horas depois. Por isso, o encontro tratou da integração das equipes de Defesa Civil, do compartilhamento de dados técnicos e do alinhamento de protocolos de resposta a enchentes e deslizamentos entre as prefeituras da região. Segundo o coordenador da Defesa Civil de Curitiba, Nelson Ribeiro, a cidade já desenvolve obras de prevenção há anos, mas o momento pede reforço das medidas existentes e maior articulação regional, já que os efeitos de chuvas intensas costumam ultrapassar os limites de cada município isoladamente.
Tecnologia, árvores e um fundo de emergência
Um detalhe pouco comentado, mas relevante, é o uso de dados cruzados para prever falhas na infraestrutura viária durante eventos climáticos. O Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba, o Ippuc, testou recentemente a combinação de informações do Simepar com dados do Waze for Cities, analisando 4.185 alertas de usuários registrados entre agosto e outubro do ano passado. A ideia é identificar padrões de alagamento em pontos específicos da malha viária antes que eles se tornem recorrentes, permitindo que a Prefeitura direcione obras preventivas com mais precisão em vez de agir apenas depois que um ponto já virou notícia por causa de um carro arrastado pela enxurrada. Esse tipo de planejamento baseado em dados tem sido tratado pela administração municipal como parte de uma estratégia mais ampla de inteligência urbana, que também orienta decisões de saneamento e uso do solo.
Outro eixo da preparação é ambiental e de longo prazo. Pelo programa Meio Milhão de Árvores, entre janeiro de 2025 e maio de 2026 foram plantadas 221 mil novas mudas na cidade, tanto por ação direta da Prefeitura quanto por moradores que retiraram árvores gratuitamente em distribuições públicas. Embora o efeito de um plantio recente não seja imediato, a lógica é a mesma que orienta os parques-esponja: quanto mais área permeável e vegetada a cidade tiver, menor a velocidade com que a água da chuva escoa para os rios, reduzindo picos de cheia. Por fim, há a questão orçamentária. Segundo o prefeito, Curitiba conta com o Fundo de Recuperação e Estabilização Fiscal, o Funrec, que soma atualmente cerca de R$ 173 milhões e pode ser acionado rapidamente para custear ações emergenciais, recuperação de infraestrutura e assistência a famílias atingidas caso um episódio climático mais grave de fato aconteça. Mesmo durante o recesso legislativo de julho, vereadores da Câmara Municipal têm cobrado detalhes sobre o andamento do comitê, incluindo pedidos de informação sobre a periodicidade das reuniões do grupo e o estágio das obras de infraestrutura relacionadas ao plano de enfrentamento, o que mostra que o tema segue sob acompanhamento mesmo fora do período de sessões.
Curitiba já enfrentou chuvas fortes no passado e sabe que a prevenção de hoje é o que evita manchetes de tragédia amanhã. O plano em curso combina obras físicas, tecnologia e articulação política, mas seu sucesso dependerá também da capacidade de resposta rápida quando as primeiras chuvas mais fortes chegarem, algo que só poderá ser avaliado quando a primavera de fato testar toda essa estrutura preparada ao longo do inverno.
