Conforme ressalta o Dr. Yuri Silva Portela, pós-graduado em geriatria, a dor lateral do quadril é uma das queixas musculoesqueléticas mais frequentes na terceira idade e, paradoxalmente, uma das mais mal diagnosticadas. Isso ocorre porque pacientes que chegam ao consultório relatando dor no quadril são frequentemente orientados a conviver com o desconforto sob o rótulo de artrose, quando, na verdade, apresentam bursite trocantérica, uma condição inflamatória tratável que compromete a marcha, fragmenta o sono e reduz progressivamente a autonomia do idoso.
Neste artigo, você vai entender por que reconhecer e tratar corretamente essa condição faz diferença concreta na qualidade de vida de quem a carrega.
O que é a bursite trocantérica e por que o idoso é mais vulnerável?
A bursa trocantérica é uma pequena estrutura em forma de saco, preenchida por líquido, localizada entre o trocanter maior do fêmur e os tendões dos músculos glúteos. Sua função é reduzir o atrito entre essas estruturas durante o movimento. Com o envelhecimento, a combinação de degeneração tendínea, alterações biomecânicas da marcha, fraqueza muscular do glúteo médio e sobrecarga mecânica repetida favorece a inflamação dessa bursa, produzindo o quadro clínico conhecido como bursite trocantérica ou, pela nomenclatura mais atual, síndrome da dor trocantérica.
Como detalha Yuri Silva Portela, a vulnerabilidade do idoso a essa condição é ampliada por fatores prevalentes na terceira idade: a sarcopenia, que enfraquece os estabilizadores do quadril; a osteoartrite do joelho ou do próprio quadril, que altera o padrão de marcha e redistribui cargas de forma inadequada; e o uso prolongado de corticosteroides, que fragiliza tendões e bursas. Identificar esses fatores contribuintes é fundamental para um tratamento que vá além do alívio sintomático imediato.
Como se apresenta e por que é confundida com artrose?
A apresentação clínica da bursite trocantérica tem características que, quando reconhecidas, orientam o diagnóstico com precisão. A dor é tipicamente localizada na face lateral do quadril, podendo irradiar para a coxa lateral, e se intensifica com a pressão direta sobre o trocanter maior, com o apoio no lado afetado durante o sono e com atividades que envolvem abdução do quadril, como subir escadas ou sair do carro. A dificuldade de dormir do lado afetado é uma das queixas mais consistentes e mais impactantes sobre a qualidade de vida do paciente.

Na avaliação de Yuri Silva Portela, pós-graduado em geriatria, a confusão com artrose de quadril ocorre porque ambas as condições produzem dor na região do quadril em idosos e frequentemente coexistem no mesmo paciente. A distinção clínica está na localização precisa da dor, que na artrose tende a ser mais anterior e inguinal, e na resposta à palpação do trocanter maior, que na bursite é tipicamente dolorosa à pressão direta. A ausência de achados radiológicos significativos de artrose em um idoso com dor lateral persistente no quadril deve aumentar a suspeita de bursite trocantérica.
Tratamento: do conservador ao intervencionista
O tratamento da bursite trocantérica no idoso deve seguir uma progressão lógica que começa pelas intervenções de menor risco e maior acessibilidade. A fisioterapia com foco no fortalecimento do glúteo médio, no alongamento da banda iliotibial e na correção biomecânica da marcha é a base do tratamento e produz resultados duradouros quando realizada de forma consistente. A modificação de atividades que agravam os sintomas, o uso de palmilhas para correção de discrepâncias no comprimento dos membros e a orientação sobre posições adequadas para o sono complementam essa abordagem inicial.
Conforme expõe Yuri Silva Portela, quando a resposta ao tratamento conservador é insuficiente, a infiltração local com corticosteroide e anestésico representa uma opção com eficácia documentada para alívio da dor no curto e médio prazo. No idoso, essa intervenção precisa ser realizada com critério, limitando o número de infiltrações para evitar a fragilização adicional dos tendões periarticulares já comprometidos pelo envelhecimento. O uso de anti-inflamatórios não esteroidais sistêmicos, embora eficaz, deve ser ponderado diante dos riscos gastrointestinais e cardiovasculares na população geriátrica.
Impacto funcional e a importância do diagnóstico precoce
A bursite trocantérica não tratada ou mal manejada produz um ciclo de deterioração funcional que vai muito além da dor localizada. Isso porque o idoso que evita caminhar por causa da dor lateral no quadril reduz progressivamente sua atividade física, o que acelera a sarcopenia, compromete o equilíbrio e aumenta o risco de quedas. Já o sono fragmentado pela dor noturna produz fadiga diurna, piora cognitiva e redução da disposição para as atividades cotidianas. Esses efeitos em cascata transformam uma condição musculoesquelética tratável em um fator de declínio funcional global.
O doutor Yuri Silva Portela resume que o diagnóstico precoce e o tratamento adequado da bursite trocantérica são investimentos diretos na autonomia e na mobilidade do idoso. Afinal, uma condição que responde bem à fisioterapia e, quando necessário, a uma infiltração bem indicada não deveria comprometer meses ou anos da vida de quem a carrega, especialmente quando as ferramentas para tratá-la estão disponíveis e acessíveis.
