Faturamento alto não é sinônimo de safra lucrativa

Por Sebastian Dorel 5 Min de leitura
Parajara Moraes Alves Junior

Para Parajara Moraes Alves Junior, CEO da Junior Contabilidade & Assessoria Rural, uma safra recorde em faturamento pode, ainda assim, ser a pior safra dos últimos anos em termos de resultado real para o produtor. A confusão entre os dois números é mais comum do que parece, mesmo entre quem já trabalha com a terra há décadas.

Faturamento é quanto entrou com a venda da produção; resultado é quanto sobrou depois de pagar insumo, mão de obra, maquinário e demais custos do ciclo, o que explica por que uma safra grande pode deixar menos dinheiro no bolso do que uma menor e mais barata. Os indicadores que revelam essa diferença raramente aparecem na conversa informal entre produtores, mas fazem toda a diferença na hora de decidir o que plantar. 

Por que o faturamento total engana na hora de avaliar uma safra?

O faturamento total cresce junto com a área plantada e com o preço da commodity no mercado internacional, dois fatores que o produtor não controla sozinho de um ano para o outro. Uma alta no preço internacional infla o faturamento sem que a gestão da propriedade tenha melhorado em nada de concreto.

Olhar só para esse número esconde ineficiências reais da operação, que só aparecem quando alguém decide investigar onde o dinheiro está sendo gasto. Parajara Moraes Alves Junior observa que propriedades com faturamento parecido, na mesma região e na mesma cultura, frequentemente têm resultado final bem diferente, e a causa está nos custos, não na receita bruta.

O que é margem por hectare e como calcular?

A margem por hectare é o resultado da safra dividido pela área plantada, e mostra quanto cada hectare efetivamente rendeu depois de descontados todos os custos diretos da produção. É um número que permite comparar talhões, culturas e até safras diferentes numa mesma base, sem depender do tamanho da propriedade.

O cálculo básico soma toda a receita da venda da produção, subtrai os custos diretos, como insumo, combustível, sementes e mão de obra temporária, e divide o resultado pela área cultivada naquela safra específica, talhão por talhão, quando possível.

Parajara Moraes Alves Junior
Parajara Moraes Alves Junior

Outros indicadores que merecem entrar na planilha

O custo de produção por saca ou por arroba complementa a margem por hectare, porque mostra o ponto de equilíbrio da operação: o preço mínimo de venda que cobre o que já foi gasto para produzir aquele volume específico, antes de qualquer lucro entrar na conta.

A relação entre endividamento e faturamento anual também merece acompanhamento constante, sobretudo em propriedades que dependem de crédito rural para bancar o custeio de cada safra. Parajara Moraes Alves Junior assinala esse indicador como um dos mais ignorados por produtores que financiam a operação ano após ano sem revisar o total acumulado da dívida.

Como usar esses números para decidir o que plantar?

Comparar a margem por hectare entre diferentes culturas, ao longo de pelo menos três safras seguidas, revela padrões que o resultado de um único ano isolado nunca mostra sozinho, sobretudo em anos de preço atípico.

Uma cultura com faturamento menor, mas custo bem mais baixo, pode superar em margem uma cultura de maior faturamento e custo elevado. Parajara Moraes Alves Junior explica que essa comparação, feita ano após ano, é o que sustenta uma decisão de plantio menos dependente do preço de mercado do momento e mais do resultado real da propriedade.

Como criar o hábito de acompanhar esses números todo mês?

Transformar esses indicadores em rotina mensal, e não apenas em um exercício de fim de safra, é o que separa a gestão reativa da gestão orientada por dados concretos. Parajara Moraes Alves Junior sugere revisar os números junto com o fechamento do Livro Caixa, aproveitando dados que já foram lançados por outro motivo naquele mesmo mês.

Esse hábito não exige planilha sofisticada nem sistema caro para começar a funcionar. Desse modo, o que faz diferença é a regularidade: olhar os mesmos números, no mesmo formato, mês após mês, até que a comparação entre safras vire parte natural da gestão da propriedade e não mais uma tarefa adiada.

 

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