A desistência do ex-governador de São Paulo João Doria (PSDB) da disputa à Presidência “deve ser analisada pela ótica simbólica e não numérica”, avalia o cientista político e CEO da empresa de pesquisa Quaest, Felipe Nunes, entrevistado pela CNN nesta terça-feira (24).

“A saída do Doria abre espaço para uma organização e coordenação melhor da terceira via”, diz Nunes. “A demanda pela terceira via ainda não encontrou uma oferta e a saída do Doria pode facilitar esse caminho de organização política, ou seja, tem esse componente não numérico mas simbólico, avalia.

“A última pesquisa mostra que aproximadamente 25% dos eleitores gostariam de votar em um candidato que não fosse nem Lula e nem Bolsonaro”, completa, citando a pesquisa divulgada no último dia 11 de maio.

Nunes comentou um argumento de críticos à candidatura de Doria sobre a senadora Simone Tebet ter menos rejeição que o ex-governador paulista.

“Entre os eleitores do Doria, o potencial de transferência de voto é muito mais na direção dos candidatos mais conhecidos do que dos não conhecidos, me refiro a Ciro (Gomes), Lula e Bolsonaro, nessa ordem”, afirma. “Cerca de 80% dos eleitores do Doria nem conhecem a Tebet.”

“Tentaram colocar na pesquisa uma solução que na verdade é política”, avalia Nunes.

Para Nunes, as “elites políticas” demoraram a se organizar contra a polarização entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o atual mandatário, Jair Bolsonaro (PL).

“Teorias de Ciência Política mostram que quando a elite política não está organizada em torno das opções oferecidas ao eleitorado, esse eleitorado tem dificuldade de processar essa informação, e isso dispersa votos”, afirma Nunes.

Perguntado se ainda há tempo para a terceira via crescer na disputa eleitoral, o CEO da Quaest vê dificuldade:

“Vivemos uma era que chamo de guerra sem fim, a gente não tem mais nas eleições aquele processo em que você organizava o dia D da eleição”, disse.

Em sua avaliação, a campanha eleitoral nos dias de hoje acontece o tempo todo:

“O eleitorado está muito mais mobilizado e muito mais engajado em torno dos temas políticos do que no passado. Há duas eleições o eleitor cuidava da vida e discutia política na época da campanha, hoje a própria política está vivendo engajamento e mobilização constante”, avalia o cientista político.

Para Felipe Nunes, a elite política dos partidos da terceira via demorou a entender as eleições de 2022 como algo muito diferente das anteriores.

“Entraram no jogo muito desorganizados, achando que a campanha só começaria lá na frente. A campanha já começou há muito tempo, o próprio presidente Bolsonaro antecipou isso, desde o fim do processo eleitoral passado”, afirma Nunes.

O diretor executivo da Quaest enxerga uma desidratação da terceira via como possibilidade.

“A questão que está no ar é quem seria o próximo a sair da disputa, já que hoje não se observa no cenário político uma empolgação nem do eleitorado, nem dos políticos fora da polarização entre Lula e Bolsonaro”, afirma o cientista político.

Perguntado se a dificuldade da terceira via decolar nas pesquisa pode encaminhar a disputa para ser resolvida no primeiro turno, Nunes acredita que a possibilidade é real.

“O eleitor é acostumado a fazer aquilo que chamamos de voto útil ou estratégico, ou seja, próximo às eleições as pessoas se informam por pesquisas pra dizer ‘olha, até prefiro o candidato A, mas já que ele tem poucas chances vou votar de uma vez na preferência B para que eu não desperdice meu voto’”.

O cientista político faz a ressalva que as eleições presidenciais no Brasil costumam ser decididas em dois turnos, salvo as eleições de Fernando Henrique Cardoso, em 1994 e 1998.

“O que está acontecendo é que a polarização está tão dada e o voto tão objetivado, que as opções de terceira via estão desaparecendo. É como se o primeiro turno tivesse se transformando no segundo turno”, conclui Nunes.

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