Como estruturar conversas difíceis entre lideranças sem que elas virem confronto?

Por Diego Velázquez 7 Min de leitura
Haroldo Augusto Filho

Há uma categoria de conversa que lideranças corporativas postergam com uma consistência que não corresponde à sua importância. Nesse contexto, Haroldo Augusto Filho, executivo com atuação em negociação empresarial, gestão de conflitos e estruturação de soluções em ambientes corporativos complexos, identifica nessa postergação uma das causas mais recorrentes de conflitos que chegam a um nível de desgaste desnecessário: conversas que deveriam ter acontecido semanas antes, quando o problema ainda era pequeno o suficiente para ser tratado sem todo o peso que acumulou no intervalo. 

O que segue é um percurso pelo que torna essas conversas difíceis de conduzir e pelo que é necessário para estruturá-las de forma que produzam resultado sem destruir a relação que as torna necessárias.

Escolha o momento com o mesmo cuidado que escolhe as palavras

O timing de uma conversa difícil entre lideranças determina em grande medida o que ela vai produzir antes que qualquer palavra seja dita. Conversas iniciadas no final de um dia de alta pressão, imediatamente depois de um episódio que gerou tensão ou em contextos em que uma das partes não tem tempo suficiente para processar o que está sendo colocado, tendem a produzir reações defensivas que o conteúdo da conversa, por mais bem preparado que esteja, não consegue neutralizar.

O momento ideal não é aquele em que quem inicia a conversa está pronto: é aquele em que ambas as partes têm condições de estar presentes para o que precisa ser discutido. Isso significa, na prática, que conversas difíceis entre lideranças raramente deveriam ser iniciadas sem aviso prévio. Assim, Haroldo Augusto Filho reflete que sinalizar que há uma conversa importante a ser feita, sem detalhar o conteúdo de forma que crie ansiedade desnecessária, dá à outra parte a possibilidade de chegar ao encontro em condições de participar de forma produtiva em vez de chegar sem preparo e ter que processar o conteúdo e a surpresa simultaneamente.

Separe o problema da pessoa antes de abrir a conversa

A distinção entre o problema que precisa ser discutido e a avaliação da pessoa com quem a conversa está sendo feita é o elemento que mais frequentemente determina se uma conversa difícil vai produzir entendimento ou vai se transformar em confronto. Quando essa distinção não é feita de forma explícita logo no início, qualquer feedback sobre comportamento ou decisão é recebido como julgamento pessoal, e o que deveria ser uma conversa sobre o problema se transforma numa conversa sobre a relação.

Haroldo Augusto Filho
Haroldo Augusto Filho

Haroldo Augusto Filho considera que fazer essa separação não é apenas uma técnica de comunicação: é uma responsabilidade de quem inicia a conversa. Quem chega à conversa com clareza sobre o que é o problema e sobre o que não está em questão, e comunica essa clareza desde o início, cria condições para que a outra parte processe o conteúdo sem a carga adicional de se sentir avaliada como pessoa. Essa diferença de condições no início da conversa produz diferenças significativas no que a conversa consegue alcançar antes de se encerrar.

Ouça antes de propor qualquer solução

Conversas difíceis entre lideranças frequentemente falham não porque o problema foi mal descrito, mas porque quem iniciou a conversa chegou com uma solução já formada e usou a conversa para apresentá-la em vez de para construí-la. Esse padrão, que parece eficiente porque economiza tempo de deliberação, produz o efeito oposto: a outra parte percebe que a conversa não era genuinamente aberta, e a resistência que essa percepção gera consome muito mais tempo do que a deliberação que foi evitada.

Ouvir antes de propor não significa adiar indefinidamente o ponto central da conversa. Significa dedicar tempo suficiente para que a outra parte expresse sua perspectiva sobre o problema antes que qualquer solução seja colocada na mesa. Esse tempo tem um efeito que vai além da informação que produz: demonstra à outra parte que sua perspectiva é relevante para o resultado da conversa, o que aumenta a disposição de considerar soluções que não partiram dela. Segundo Haroldo Augusto Filho, a solução que surge depois de uma escuta genuína encontra uma outra parte em condições completamente diferentes de considerar do que a solução apresentada antes que qualquer escuta acontecesse.

Encerre com clareza sobre o que foi decidido e o que ainda precisa ser resolvido

Conversas difíceis entre lideranças que encerram sem clareza sobre o que foi acordado tendem a precisar ser repetidas, com o agravante de que a segunda vez carrega o peso da primeira. O encerramento é a etapa que mais frequentemente é tratada como consequência natural do processo, quando, na verdade, é uma decisão que precisa ser tomada ativamente por quem conduziu a conversa.

Encerrar com clareza significa nomear explicitamente o que foi acordado, o que ficou em aberto e o que cada parte vai fazer a partir dali. Essa nomeação parece redundante quando a conversa foi longa e detalhada, mas é exatamente o que impede que cada parte saia com uma versão diferente do que aconteceu. Haroldo Augusto Filho destaca que o encerramento bem feito de uma conversa difícil tem um segundo efeito que raramente é considerado: ele sinaliza à outra parte que a conversa foi conduzida com seriedade e com respeito pelo tempo de ambos, o que, por si só, contribui para preservar a relação que a dificuldade da conversa colocou sob pressão. Conversas que encerram dessa forma raramente precisam ser repetidas, porque o que foi tratado foi tratado de forma que ambas as partes reconhecem como completa.

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