Pedro Henrique Torres Bianchi, advogado com atuação em contencioso empresarial e direito processual civil, observa que empresas costumam decidir se vão litigar com base quase exclusiva no mérito da questão, quando deveriam pesar, com o mesmo cuidado, o tempo provável até uma decisão definitiva.
Essa lacuna de análise aparece com frequência mesmo em empresas grandes, que tratam departamento jurídico e planejamento financeiro como áreas separadas, sem diálogo direto sobre o impacto de cada disputa relevante no caixa e na atenção da liderança.
O custo de ignorar o fator tempo
Essa ausência de cálculo temporal custa caro. Uma disputa empresarial pode ter mérito sólido e ainda assim levar anos até um desfecho final, considerando instâncias recursais e eventuais incidentes processuais ao longo do caminho. Durante todo esse período, o valor discutido fica indisponível, o relacionamento comercial com a outra parte, quando existe, permanece tensionado, e a energia de gestão segue voltada para um assunto que não gera caixa.
Quanto mais tempo o processo se estende, maior também a incerteza sobre o próprio resultado final, já que jurisprudência e composição de tribunais podem mudar ao longo do caminho.
A pergunta que deveria vir antes de judicializar
Pedro Bianchi destaca que a pergunta relevante, antes de judicializar, não deveria ser apenas sobre ter razão ou não em um caso, mas sim sobre qual será o tempo e o custo esperados dessa disputa, e se compensam o valor em jogo, considerando também alternativas de solução mais rápida. Em muitas situações, a resposta honesta aponta para um acordo, mesmo quando a tese jurídica é favorável.

Isso não significa abrir mão de direito legítimo por qualquer proposta. Significa avaliar, com dados realistas sobre duração média de processos semelhantes e custo de manter o litígio ativo, se vale a pena perseguir o resultado ideal a qualquer prazo, ou se um resultado razoável, obtido rapidamente, preserva mais valor para a empresa no conjunto.
Métodos como mediação e arbitragem, quando previstos em contrato ou aceitos pela outra parte, costumam reduzir esse prazo de forma significativa em comparação à via judicial tradicional, ainda que também tenham custo próprio a considerar.
O custo invisível da atenção da diretoria
Um fator frequentemente subestimado é o custo de oportunidade da atenção da diretoria. Disputas relevantes exigem tempo de gestores seniores para acompanhar estratégia, prestar depoimento ou avaliar propostas de acordo. Esse tempo, somado ao longo dos anos que um processo complexo pode levar, representa um custo real, ainda que não apareça como linha específica em nenhum demonstrativo financeiro. Multiplicado por várias disputas simultâneas, esse custo de atenção pode superar, em impacto prático, o próprio valor discutido em cada processo isolado.
Pedro Bianchi assinala que é essencial que empresas com contencioso relevante mantenham, com apoio jurídico, uma avaliação periódica de cada disputa em andamento, revisando não apenas a chance de êxito, mas o cenário de tempo e custo projetado à luz de eventuais mudanças, como uma nova decisão de tribunal superior sobre matéria semelhante. Disputas que pareciam favoráveis no início podem se tornar menos atrativas conforme o cenário jurisprudencial evolui, e o contrário também é verdadeiro.
Contencioso como parte da gestão de risco, não à parte dela
Tratar contencioso como parte da gestão de risco da empresa, e não apenas como assunto exclusivamente jurídico, muda a qualidade dessas decisões. A escolha entre continuar litigando e buscar um acordo deixa de ser vista como derrota ou vitória simbólica, e passa a ser avaliada pelo que efetivamente preserva mais valor para o negócio ao longo do tempo, que costuma ser o critério que menos aparece nessas conversas, apesar de ser o mais relevante.
Nesse sentido, o contencioso empresarial deveria ser tratado como mais um item na pauta de gestão de risco, com indicadores próprios de acompanhamento, e não apenas como relatório jurídico apresentado esporadicamente ao conselho, sem conexão direta com o planejamento financeiro do restante da empresa. Diante disso, Pedro Henrique Torres Bianchi salienta que empresas que incorporam essa lógica na rotina de decisão tendem a acumular menos disputas arrastadas e mais soluções obtidas em prazo compatível com a necessidade real do negócio.
