Curitiba avança na saúde digital: como telemedicina e inteligência artificial podem mudar o atendimento pelo SUS

Por Sebastian Dorel 9 Min de leitura
Curitiba avança na saúde digital: como telemedicina e inteligência artificial podem mudar o atendimento pelo SUS

Consultórios digitais, monitoramento remoto e inteligência artificial já integram a estratégia de saúde da capital e devem chegar a toda a rede municipal.

Curitiba está ampliando o uso de tecnologia para mudar a forma como os moradores acessam e recebem atendimento pelo SUS. A capital paranaense apresentou recentemente, em um fórum internacional da Organização Pan-Americana da Saúde e da Organização Mundial da Saúde, um modelo que integra atendimento presencial, telemedicina, dados e inteligência artificial. A iniciativa coloca Curitiba entre as cidades brasileiras que buscam utilizar ferramentas digitais não apenas para facilitar o acesso, mas também para organizar melhor a rede pública de saúde.

O tema ganhou relevância porque algumas dessas soluções já estão sendo utilizadas pelos moradores. Os Consultórios Digitais ultrapassaram 10 mil atendimentos e a Prefeitura prevê levar o serviço às 109 Unidades de Saúde até março de 2027. Ao mesmo tempo, as Centrais de Cuidado Contínuo fazem monitoramento remoto de pacientes com doenças crônicas, enquanto ferramentas de inteligência artificial começam a apoiar processos de avaliação e regulação. Para quem vive em Curitiba, a principal dúvida é o que essa transformação realmente muda no atendimento e quando seus efeitos poderão ser percebidos no dia a dia.

O que já está funcionando na saúde digital de Curitiba?

Uma das principais mudanças está nos Consultórios Digitais, que permitem ampliar o acesso à Atenção Primária por meio da telemedicina. A proposta não é simplesmente substituir uma consulta presencial por uma chamada de vídeo, mas integrar o atendimento remoto à estrutura das Unidades de Saúde e manter o vínculo do paciente com sua equipe de referência. Segundo a Prefeitura de Curitiba, mais de 10 mil atendimentos já foram realizados e a expansão para as 109 unidades está prevista até março de 2027.

Essa estratégia pode ser especialmente útil em situações nas quais o atendimento não exige necessariamente a presença física do paciente. Orientações, avaliações iniciais, acompanhamento de determinadas condições e outras demandas podem ser encaminhadas de maneira digital, enquanto os casos que necessitam de exame físico ou procedimento continuam sendo direcionados para atendimento presencial. O ganho potencial está em utilizar cada modalidade no momento adequado, evitando deslocamentos desnecessários e liberando espaço na rede para situações que realmente exigem presença física.

Outro componente da transformação são as Centrais de Cuidado Contínuo, criadas para acompanhar remotamente pessoas com condições crônicas, como hipertensão e diabetes. A lógica muda de um sistema que espera o paciente procurar atendimento quando o problema aparece para uma estrutura que busca acompanhar sua evolução e identificar necessidades antecipadamente. A Prefeitura de Curitiba informa que essas centrais fazem parte da Política Municipal de Saúde Digital instituída em 2026.

Como a inteligência artificial pode afetar quem usa o SUS em Curitiba?

A inteligência artificial aparece principalmente como ferramenta de apoio aos profissionais e à gestão da rede. Curitiba informou que utiliza recursos de IA para auxiliar a avaliação de solicitações e encaminhamentos para especialistas, buscando aumentar eficiência, segurança e equidade na regulação. Isso é diferente de colocar uma inteligência artificial para decidir sozinha quem será atendido, já que a tecnologia funciona como suporte dentro de processos conduzidos pelos profissionais de saúde.

Na prática, uma regulação mais organizada pode ter impacto sobre um dos principais problemas enfrentados por sistemas públicos de saúde: a necessidade de encaminhar cada paciente ao serviço adequado no momento adequado. Se os dados disponíveis forem utilizados de maneira integrada, a administração poderá identificar padrões, acompanhar filas e direcionar recursos com maior precisão. O potencial é reduzir etapas desnecessárias e melhorar o fluxo entre unidades básicas, especialistas, hospitais e outros pontos da rede, embora os resultados dependam da qualidade dos dados e da capacidade de execução.

A estratégia também inclui o Núcleo de Teleconsultoria Especializada, que permite apoiar profissionais da Atenção Primária em decisões relacionadas ao encaminhamento de pacientes. Com isso, uma dúvida clínica pode ser analisada com suporte especializado antes de o paciente necessariamente entrar em uma fila para atendimento presencial. A Prefeitura afirma que essa integração faz parte de um ecossistema que conecta Atenção Primária, saúde mental, Consultórios Digitais, vigilância, ambulatórios, hospitais e UPAs.

Para o morador, isso significa que a tecnologia pode aparecer de formas que nem sempre serão visíveis. O paciente pode perceber apenas que conseguiu uma orientação mais rapidamente, que foi encaminhado para o serviço adequado ou que recebeu acompanhamento sem precisar comparecer várias vezes à unidade. Nos bastidores, porém, sistemas integrados e ferramentas de análise de dados podem estar ajudando profissionais e gestores a organizar a jornada de atendimento.

O que muda para os moradores até 2027 e quais são os desafios?

A expansão prevista para as 109 Unidades de Saúde é um dos próximos passos mais importantes. Se o cronograma for mantido, mais moradores de diferentes regiões de Curitiba poderão ter acesso aos Consultórios Digitais sem depender exclusivamente de estruturas concentradas em determinadas áreas. Isso pode ser relevante principalmente para pessoas que enfrentam dificuldades de deslocamento, trabalhadores que têm pouca disponibilidade durante o horário comercial e pacientes que precisam de acompanhamento frequente.

Ao mesmo tempo, a digitalização não elimina a necessidade de atendimento presencial. A própria Secretaria Municipal da Saúde destaca que os serviços digitais são complementares à rede física, preservando o vínculo entre o usuário e sua equipe de referência. Essa característica é importante porque uma consulta remota não substitui exames, procedimentos, avaliações físicas ou atendimentos de emergência. O desafio será encontrar o equilíbrio entre conveniência digital e assistência presencial de qualidade.

Outro ponto decisivo será a proteção das informações dos pacientes. Quanto maior a integração de sistemas e quanto mais dados forem utilizados para apoiar decisões, maior será a responsabilidade sobre segurança, privacidade e controle de acesso. O avanço tecnológico no SUS precisa, portanto, ser acompanhado por governança, protocolos e transparência sobre como as informações são utilizadas, especialmente quando ferramentas de inteligência artificial entram em processos de apoio à decisão.

Curitiba também terá de lidar com a inclusão digital. Parte da população possui facilidade para utilizar aplicativos, chamadas de vídeo e serviços online, enquanto outra parcela pode enfrentar dificuldades relacionadas à conexão, equipamentos, acessibilidade ou familiaridade com tecnologia. Por isso, a expansão da saúde digital tende a funcionar melhor quando não elimina os canais tradicionais, mas oferece uma alternativa adicional para quem pode e deseja utilizá-la.

A experiência da capital ainda pode gerar efeitos para outras cidades do Paraná. Se os modelos de telemedicina, monitoramento remoto e apoio tecnológico à regulação demonstrarem resultados positivos, eles poderão servir de referência para municípios interessados em modernizar seus próprios serviços. O movimento também reforça a importância de formar profissionais capazes de trabalhar com dados, ferramentas digitais e novas tecnologias dentro da área da saúde.

Nos próximos meses, o principal indicador a acompanhar será justamente a expansão dos serviços para toda a rede municipal. O objetivo não é apenas aumentar o número de atendimentos digitais, mas verificar se a tecnologia consegue reduzir barreiras de acesso, melhorar o acompanhamento dos pacientes e tornar o sistema mais eficiente. Para os curitibanos, a mudança mais importante poderá acontecer quando a tecnologia deixar de ser percebida como novidade e passar a funcionar como parte natural da jornada pelo SUS, desde a primeira orientação até o acompanhamento de tratamentos e encaminhamentos.

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